These things are there. The garden and the tree
The serpent at its root, the fruit of gold
The woman in the shadow of the boughs
The running water and the grassy space.
They are and were there. At the old world's rim,
In the Hesperidean grove, the fruit
Glowed golden on eternal boughs, and there
The dragon Ladon crisped his jellwed crest
Scraped a gold claw and sharped a silver tooth
And dozed and waited through eternity
Until the tricksy hero Herakles
Came to this dispossession and the theft.
Randolph Henry Ash, from The Garden of Proserpina, 1861
The serpent at its root, the fruit of gold
The woman in the shadow of the boughs
The running water and the grassy space.
They are and were there. At the old world's rim,
In the Hesperidean grove, the fruit
Glowed golden on eternal boughs, and there
The dragon Ladon crisped his jellwed crest
Scraped a gold claw and sharped a silver tooth
And dozed and waited through eternity
Until the tricksy hero Herakles
Came to this dispossession and the theft.
Randolph Henry Ash, from The Garden of Proserpina, 1861
Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade
Ser ou não ser, eis a questão:
Se é mais nobre no espírito sofrer
as fundas e flechas da fortuna ultrajante,
Ou brandir armas contra um mar de agravos,
E, opondo-os, fazê-los cessar. Morrer - dormir,
Mais nada; e num sono dizer que cessou
O torno no peito e os mil choques naturais
De que a carne é herdeira: eis uma consumação
Que devotamente se busque. Morrer, dormir;
Dormir, porventura sonhar - ah, é esse o estorvo:
Pois nesse sono da morte que sonhos virão,
Quando nos desligamos deste liame mortal,
Nos deve fazer pensar - é esse o aspecto
Que calamidade faz de tão longa vida.
Pois quem aceitara a férula e açoites do tempo,
O dolo do opressor, a contumélia de insolentes,
A dor de um amor repelido, as demoras legais,
A insolência do lugar, e os vários gravames
Que o mérito paciente sofre dos incapazes,
Quando por si mesmo podia dar-se livrança
Com um punhal despido? Quem alçara fardos,
Esfalfado a suar sob esse jugo estafado,
Se não que o temor de algo depois da morte,
Esse país não descoberto de cujo o término
Viajante nenhum retorna, encandeia a vontade,
E antes nos faz sofrer os males que temos
Do que refugiar-nos em outros desconhecidos?
Assim faz de nós todos a consciência cobardes,
E assim o natural rubor da resolução
Cai enfermo desse modo pálido de pensar,
E empresas de grande rasgo e momento
Por reflexões dessas o decurso divertem
E perdem o nome da acção. Silêncio agora,
A bela Ofélia! Ninfa, nas tuas preces
Sejam os meus pecados lembrados.
William Shakespeare, Hamlet
Se é mais nobre no espírito sofrer
as fundas e flechas da fortuna ultrajante,
Ou brandir armas contra um mar de agravos,
E, opondo-os, fazê-los cessar. Morrer - dormir,
Mais nada; e num sono dizer que cessou
O torno no peito e os mil choques naturais
De que a carne é herdeira: eis uma consumação
Que devotamente se busque. Morrer, dormir;
Dormir, porventura sonhar - ah, é esse o estorvo:
Pois nesse sono da morte que sonhos virão,
Quando nos desligamos deste liame mortal,
Nos deve fazer pensar - é esse o aspecto
Que calamidade faz de tão longa vida.
Pois quem aceitara a férula e açoites do tempo,
O dolo do opressor, a contumélia de insolentes,
A dor de um amor repelido, as demoras legais,
A insolência do lugar, e os vários gravames
Que o mérito paciente sofre dos incapazes,
Quando por si mesmo podia dar-se livrança
Com um punhal despido? Quem alçara fardos,
Esfalfado a suar sob esse jugo estafado,
Se não que o temor de algo depois da morte,
Esse país não descoberto de cujo o término
Viajante nenhum retorna, encandeia a vontade,
E antes nos faz sofrer os males que temos
Do que refugiar-nos em outros desconhecidos?
Assim faz de nós todos a consciência cobardes,
E assim o natural rubor da resolução
Cai enfermo desse modo pálido de pensar,
E empresas de grande rasgo e momento
Por reflexões dessas o decurso divertem
E perdem o nome da acção. Silêncio agora,
A bela Ofélia! Ninfa, nas tuas preces
Sejam os meus pecados lembrados.
William Shakespeare, Hamlet
Ela disse: O que é a história?
E ele disse: A História é um anjo
Soprado para trás na direcção do futuro
Ele disse: A História é uma pilha de destroços
E o anjo quer voltar para trás e consertá-los
Reparar as coisas que foram quebradas
Mas há uma tempestade que sopra do Paraíso
E que não pára de empurrar o anjo
Para trás na direcção do futuro
E esta tempestade, esta tempestade
Chama-se
Progresso.
Laurie Anderson
So you go on and I'll be happier, I'll be happier
You go on, you go
You'll be gone, and I'll be gone
You go on and I'll be happier, you go on and I'll be happier
You go on, you go on, you go on and I'll go on and I'll be happier
You go on and I'll be happier, you go on and I'll be happier
Sound of Silence
People writing songs
That voices never share
And no one dare
Disturb the sound of silence
Segunda-feira
"Dor de cabeça e eu prostrada na cama. Levanto-me e preciso de uma considerável dose de cafeína. Beijas-me, e tu que nem bebes café, sorris. Gosto que me lembres que pertenço a algum lado. Não tens para onde ir e eu só tenho às vezes. O que vai ser de nós? Já ninguém se interessa. A luta está a fazer-se devagar de mais, pergunto-me se alguém ainda luta. Como posso eu pôr isso em causa... logo eu. Mandas currículos, confidencias angústias, cartas de motivação. Mas qual motivação? E agora, vou-me embora? Não. Fizeste uma vida que te impede de sair, é o amor é o cão e este mar. Estás preso aqui. Almoçamos e ouvimos gente na televisão. as notícias deixaram de ser novas. As praxes, a emigração, os mendigos e ligue para este número e habilite-se a ganhar 3 mil euros, o custo da chamada é de 50 cêntimos mais IVA. Esquecemo-nos por instantes e dançamos. É tão bom o quente da casa. A música está aqui, por isso cantemos e brindemos às aventuras vindouras. É assim que se começa, isto vai mudar e ainda vamos ser tão felizes. Havemos de poder ir à praia sem nos preocupar com as portagens dessa ponte. Hoje é o teu aniversário, ignoras o valor das chamadas mas sabe-me tão bem ver-te sorrir. Tenho uma ideia, vamos apanhar o metro e só saímos quando estivermos fartos. Gosto de ver gente, não precisamos de TV, aqui encontramos o que é novo e o que é velho. Encontramos o que é real e ainda nos rimos muito. Ah, nós gostamos disto e gostamos um do outro. Temos tudo, amor."
Rita Camarneiro, in Jornal Metro 17 de Fevereiro de 2014
If I'm butter then he's a hot knife
If I'm butter - if I'm butter-
If I'm butter, then he's a hot knife,
He makes my heart a cinemascope,
He's showing the dancing bird of paradise.
António José Bolívar sabia ler, mas não escrever.
O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições, mas, como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido.
Lia lentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.
Quando havia uma passagem que lhe agrava especialmente, repeti-a muitas vezes, todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela.
Luis Sepúlveda, O velho que lia romances de amor
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