Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais
Ruy Belo
Na primeira noite do resto da minha vida olhei para mim, a partir de algum ponto situado muito acima, e achei-me triste e sem destino, como uma lagosta no aquário de um restaurante. Uma água turva e fria flutuava sobre a cidade, prendia-se aos cabelos e aos gestos, embaraçava o mais simples raciocínio. A multidão, animada por um DJ angolano, um homem enorme e alegre, chamado Papa Bolingô, dançava aos encontrões sob um enorme toldo de plástico. Os ritmos tropicais pareciam deslocados, como um filme de terror com a banda sonora de uma comédia romântica.
- Não há nada mais deprimente do que a alegria dos tristes - comentei alto.
José Eduardo Agualusa, O Livro dos Camaleões
E repeti dias e dias o desassossego. Os nomes
que poderia lembrar. A cidade com os seus
lugares de desespero o que me foi sendo
possível recordar. E neste desolado hospício,
hoje, vi todo o meu enlouquecimento – um
propósito de me lembrar de todas essas coisas
e o seu lento e doloroso sabor. Um
obsessivo crescer do sofrimento – maior amor.
Rui Diniz
Não sei porque floriram no meu rosto
os olhos e os rostos que há em ti.
Floriram por acaso, ao sol de agosto
sem mesmo haver agosto ou sol em mim.
Não sei porque floriram: se o orvalho as queima
(Ponho as mãos nos olhos para os proteger!)
Tão estranho! florirem no meu rosto
olhos e rostos que não posso ver.
Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1946
1, 2, 3, 4 tell me that you love me more
Sleepless long nights that is what my youth is for
Old teenage hopes are alive at your door
Left you with nothing but they want some more
Ohhhhh You're changing your heart
Ohhhhh You know who you are
Sweetheart, bitterheart, now I can't tell you apart
Cosy and cold, put the horse before the cart
Those teenage hopes who have tears in their eyes
Too scared to own up to one little lie
Ohhhhh You're changing your heart
Ohhhhh You know who you are
1, 2, 3, 4, 5, 6, 9 and 10
Money can't buy you back the love that you had then
1, 2, 3, 4, 5, 6, 9 and 10
Money can't buy you back the love that you had then
Ohhhhh You're changing your heart
Ohhhhh You know who you are
Ohhhhh You're changing your heart
Ohhhhh You know who you are
Who you are
For the teenage boys
They're breaking your heart
For the teenage boys
They're breaking your heart
escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio de vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer-te
apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão
mas não podia reconhecer-te
sim
correr a cidade procurar-te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses
mesmo que dissesses coisas que me
mesmo que
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar-me
Al Berto
Horas breves de meu contentamento
Nunca me pareceu quando vos tinha,
Que vos visse mudadas tão asinha
Em tão compridos anos de tormento.
As altas torres, que fundei no vento,
Levou, em fim, o vento que as sostinha;
Do mal que me ficou a culpa é minha,
Pois sobre cousas vãs fiz fundamento,
Amor com brandas mostras aparece:
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.
Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem, que desfalece,
Um bem aventurar, que sempre dura!
Luís de Camões
Nunca me pareceu quando vos tinha,
Que vos visse mudadas tão asinha
Em tão compridos anos de tormento.
As altas torres, que fundei no vento,
Levou, em fim, o vento que as sostinha;
Do mal que me ficou a culpa é minha,
Pois sobre cousas vãs fiz fundamento,
Amor com brandas mostras aparece:
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.
Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem, que desfalece,
Um bem aventurar, que sempre dura!
Luís de Camões
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