Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
Tarde turquesa
Quarenta graus
Talvez porque você não esteja
tudo lateja
Tarde sem nuvem
Cinquenta graus
Talvez por sua ausência
tudo derreta
Noite sem ninguém
Nada se mexe
Eu sonho nosso amor a sério
E você em outro hemisfério
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo parece
Derreter
Adriana Calcanhoto
Quarenta graus
Talvez porque você não esteja
tudo lateja
Tarde sem nuvem
Cinquenta graus
Talvez por sua ausência
tudo derreta
Noite sem ninguém
Nada se mexe
Eu sonho nosso amor a sério
E você em outro hemisfério
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo parece
Derreter
Adriana Calcanhoto
Decido encher todas as minhas páginas em branco
com as mais belas combinações de palavras
que seja capaz de engendrar.
E depois, porque quero assegurar-me
que a vida não é absurda
e não me encontro só sobre a terra,
reúno-as todas num livro
e ofereço-o ao mundo.
Este, retribui-me com a riqueza,
a glória e o silêncio.
Mas não sei que fazer com este dinheiro,
nem que prazer tirar
de contribuir para o progresso da literatura,
pois só desejo o que jamais obterei
- a certeza de que as minhas palavras
tocaram o coração do mundo.
É então que me pergunto
o que vem a ser o meu talento,
e descubro que não passa de uma forma
de me consolar da solidão.
Risível consolo - que apenas me torna
cinco vezes mais pesada
a solidão
Stig Dagerman
com as mais belas combinações de palavras
que seja capaz de engendrar.
E depois, porque quero assegurar-me
que a vida não é absurda
e não me encontro só sobre a terra,
reúno-as todas num livro
e ofereço-o ao mundo.
Este, retribui-me com a riqueza,
a glória e o silêncio.
Mas não sei que fazer com este dinheiro,
nem que prazer tirar
de contribuir para o progresso da literatura,
pois só desejo o que jamais obterei
- a certeza de que as minhas palavras
tocaram o coração do mundo.
É então que me pergunto
o que vem a ser o meu talento,
e descubro que não passa de uma forma
de me consolar da solidão.
Risível consolo - que apenas me torna
cinco vezes mais pesada
a solidão
Stig Dagerman
Sally: Sometimes I feel like there's a hole inside of me, an emptiness that at times seems to burn. I think if you lifted my heart to your ear, you could probably hear the ocean. The moon tonight, there's a circle around it. Sign of trouble not far behind. I have this dream of being whole. Of not going to sleep each night, wanting. But still sometimes, when the wind is warm or the crickets sing... I dream of a love that even time will lie down and be still for. I just want someone to love me. I want to be seen. I don't know. Maybe I had my happiness. I don't want to believe it but, there is no man, Gilly. Only that moon.
Movie: Practical Magic
seguíamos a água
porque a secura nos cercava
como um animal
quase louco
do alto de pedras antigas
avistávamos cidades
para onde partíamos
a todas as horas
metrópoles
de ventos eufóricos
que nos sopravam
a humanidade inteira
na forma
do grito e do olhar
e no incêndio infinito
do sangue
e eram tão poderosas
as palavras que sabíamos
tão nobres os silêncios
por onde elas espelhavam
e tão grande
era tão grande o coração
que as ouvia,
que as guardava
num secreto
para sempre!
Gil T. Sousa
These things are there. The garden and the tree
The serpent at its root, the fruit of gold
The woman in the shadow of the boughs
The running water and the grassy space.
They are and were there. At the old world's rim,
In the Hesperidean grove, the fruit
Glowed golden on eternal boughs, and there
The dragon Ladon crisped his jellwed crest
Scraped a gold claw and sharped a silver tooth
And dozed and waited through eternity
Until the tricksy hero Herakles
Came to this dispossession and the theft.
Randolph Henry Ash, from The Garden of Proserpina, 1861
The serpent at its root, the fruit of gold
The woman in the shadow of the boughs
The running water and the grassy space.
They are and were there. At the old world's rim,
In the Hesperidean grove, the fruit
Glowed golden on eternal boughs, and there
The dragon Ladon crisped his jellwed crest
Scraped a gold claw and sharped a silver tooth
And dozed and waited through eternity
Until the tricksy hero Herakles
Came to this dispossession and the theft.
Randolph Henry Ash, from The Garden of Proserpina, 1861
Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade
Ser ou não ser, eis a questão:
Se é mais nobre no espírito sofrer
as fundas e flechas da fortuna ultrajante,
Ou brandir armas contra um mar de agravos,
E, opondo-os, fazê-los cessar. Morrer - dormir,
Mais nada; e num sono dizer que cessou
O torno no peito e os mil choques naturais
De que a carne é herdeira: eis uma consumação
Que devotamente se busque. Morrer, dormir;
Dormir, porventura sonhar - ah, é esse o estorvo:
Pois nesse sono da morte que sonhos virão,
Quando nos desligamos deste liame mortal,
Nos deve fazer pensar - é esse o aspecto
Que calamidade faz de tão longa vida.
Pois quem aceitara a férula e açoites do tempo,
O dolo do opressor, a contumélia de insolentes,
A dor de um amor repelido, as demoras legais,
A insolência do lugar, e os vários gravames
Que o mérito paciente sofre dos incapazes,
Quando por si mesmo podia dar-se livrança
Com um punhal despido? Quem alçara fardos,
Esfalfado a suar sob esse jugo estafado,
Se não que o temor de algo depois da morte,
Esse país não descoberto de cujo o término
Viajante nenhum retorna, encandeia a vontade,
E antes nos faz sofrer os males que temos
Do que refugiar-nos em outros desconhecidos?
Assim faz de nós todos a consciência cobardes,
E assim o natural rubor da resolução
Cai enfermo desse modo pálido de pensar,
E empresas de grande rasgo e momento
Por reflexões dessas o decurso divertem
E perdem o nome da acção. Silêncio agora,
A bela Ofélia! Ninfa, nas tuas preces
Sejam os meus pecados lembrados.
William Shakespeare, Hamlet
Se é mais nobre no espírito sofrer
as fundas e flechas da fortuna ultrajante,
Ou brandir armas contra um mar de agravos,
E, opondo-os, fazê-los cessar. Morrer - dormir,
Mais nada; e num sono dizer que cessou
O torno no peito e os mil choques naturais
De que a carne é herdeira: eis uma consumação
Que devotamente se busque. Morrer, dormir;
Dormir, porventura sonhar - ah, é esse o estorvo:
Pois nesse sono da morte que sonhos virão,
Quando nos desligamos deste liame mortal,
Nos deve fazer pensar - é esse o aspecto
Que calamidade faz de tão longa vida.
Pois quem aceitara a férula e açoites do tempo,
O dolo do opressor, a contumélia de insolentes,
A dor de um amor repelido, as demoras legais,
A insolência do lugar, e os vários gravames
Que o mérito paciente sofre dos incapazes,
Quando por si mesmo podia dar-se livrança
Com um punhal despido? Quem alçara fardos,
Esfalfado a suar sob esse jugo estafado,
Se não que o temor de algo depois da morte,
Esse país não descoberto de cujo o término
Viajante nenhum retorna, encandeia a vontade,
E antes nos faz sofrer os males que temos
Do que refugiar-nos em outros desconhecidos?
Assim faz de nós todos a consciência cobardes,
E assim o natural rubor da resolução
Cai enfermo desse modo pálido de pensar,
E empresas de grande rasgo e momento
Por reflexões dessas o decurso divertem
E perdem o nome da acção. Silêncio agora,
A bela Ofélia! Ninfa, nas tuas preces
Sejam os meus pecados lembrados.
William Shakespeare, Hamlet
Ela disse: O que é a história?
E ele disse: A História é um anjo
Soprado para trás na direcção do futuro
Ele disse: A História é uma pilha de destroços
E o anjo quer voltar para trás e consertá-los
Reparar as coisas que foram quebradas
Mas há uma tempestade que sopra do Paraíso
E que não pára de empurrar o anjo
Para trás na direcção do futuro
E esta tempestade, esta tempestade
Chama-se
Progresso.
Laurie Anderson
So you go on and I'll be happier, I'll be happier
You go on, you go
You'll be gone, and I'll be gone
You go on and I'll be happier, you go on and I'll be happier
You go on, you go on, you go on and I'll go on and I'll be happier
You go on and I'll be happier, you go on and I'll be happier
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